Ao final de nossa primeira aula do ateliê integrado de arquitetura o professor nos fez a seguinte pergunta: o que a arquitetura nos proporciona que o vestuário não pode nos proporcionar? Meu primeiro pensamento foi a privacidade. Não só a privacidade de ninguém poder te ver, mas uma privacidade compartilhada. A privacidade de uma casa, que cria a unidade familiar. A de um escritório, que cria a unidade de uma empresa. A de um templo, que cria a unidade de uma igreja. Pessoas podem até usar tipos de vestimentas específicos que as separem em grupos, mas somente a arquitetura pode efetivar esses grupos, delimitando seus espaços.
Concluindo esse primeiro pensamento e percebendo o poder da arquitetura de criar e efetivar grupos e unidades, comecei a observar grupos maiores. A aparência da arquitetura na cidade varia de acordo com a classe social que vive em cada região. Essa aparência é um divisor, indica quem "deve" estar nesse lugar e quem não. A arquitetura então se mostra então como instrumento da desigualdade social, sendo o que divide as classes, mantendo as delimitações físicas.
Apesar disso fazer a arquitetura parecer a vilã da história, ao mesmo tempo que ela é o problema, ela é a solução. Sendo ela instrumento para divisão dos espaços da cidade entre classes, ela pode também ser o instrumento para a equalização das condições de vida destas. Veja bem, se a partir de hoje todos nós passássemos a usar uma mesma vestimenta seria quase impossível tratarmos pessoas de formas diferentes observando sua maneira de vestir. Contudo, um mendigo vestido da mesma forma que um milionário ainda viveria na rua enquanto o milionário vive numa mansão. Já se este mendigo tivesse um lugar onde morar que atendesse a suas necessidades específicas e o permitisse viver de forma confortável, esse abismo entre eles iria diminuir consideravelmente. Ao transformar espaços e criar outros que democratizem o acesso à arquitetura e à cidade, estamos usando este instrumento para diminuição da desigualdade social.
Concluí então que o que arquitetura nos proporciona e o vestuário não é a efetivação das relações sociais no espaço. Temos uma ferramenta que pode organizar o espaço de forma que acharmos mais interessante. Cabe a nós então termos consciência para usar ela de forma justa.
- 11:58:00
- 0 Comments